AICEP -AGENCIA PARA O INVESTIMENTO E COMERCIO EXTERNO -ENTREVISTA

Basílio Horta | Presidente da AICEP
«Leiria é uma região com forte tradição de internacionalização»
17 Ago.
Célia Marques

(Entrevista publicada na Revista Leiria Global, editada pelo Jornal de Leiria e distribuída com a edição de 12/07/2007 do semanário)

Os argumentos utilizaria para “vender” a região de Leiria a investidores estrangeiros e as vantagens de infra-estruturas como a Ota e a Rede de Alta Velocidade, «na “centralidade” da região», são alguns dos assuntos abordados, em entrevista com o presidente da AICEP. Tempo ainda para explicar as motivações da fusão da API com o ICEP e o criticado modelo das missões empresariais ao estrangeiro.

A classe empresarial tem sido crítica relativamente à fusão do ICEP com a API. Quais as principais vantagens desta fusão?
A AICEP irá concentrar todos os seus esforços na captação de investimento e na dinamização das exportações e da internacionalização das empresas portuguesas. É sem dúvida um grande desafio, mas ao mesmo tempo uma oportunidade que devemos agarrar, associando as vantagens do ICEP às da API. Assim poderemos conjugar os aspectos positivos do ICEP, que incluem o acesso à rede e mecanismos de promoção, com as mais valias da API, que tem pautado a sua actuação por critérios de selectividade e rigor na sua actividade de acompanhamento de clientes, reconhecida aliás internacionalmente. Ainda recentemente, a API recebeu o prémio da melhor agência atribuído pela WAIPA, a maior Associação de Agências de Investimento no âmbito da UNCTAD. O grande desafio é constituir uma nova entidade, à luz das necessidades da economia portuguesa e dos seus principais actores, as empresas, no que toca à sua internacionalização.

Os empresários são também críticos relativamente ao formato das missões empresariais ao estrangeiro. Consideram-nas pouco frutíferas do ponto de vista da realização efectiva de negócios. É equacionável outro modelo de visita?
O formato das visitas pode ser sempre melhorado. No entanto, a verdadeira questão não é essa, mas sim a de saber como penetrar com eficácia nos mercados alvo. Para cada empresa em concreto, este é um caminho que tem que ser em primeiro lugar por elas decidido. As estratégias de internacionalização e exportação devem ser de longo prazo, e as acções no mercado têm de ter continuidade. Os resultados só se percebem no longo prazo, pelo que é necessária uma grande persistência. Por outro lado, as visitas têm de fazer parte de uma estratégia de internacionalização das empresas previamente definida, que integre todos os aspectos relevantes neste processo, desde a avaliação e estudo do mercado, à divulgação da marca, uma política activa de divulgação dos produtos e serviços, acesso aos canais de distribuição, até à identificação de oportunidades para o estabelecimento de uma presença directa no mercado ou através de parcerias.

Como caracteriza a região de Leiria do ponto de vista da internacionalização?
É uma região com forte tradição de internacionalização. Nesta região encontramos alguns sectores onde os nossos produtos e serviços são valorizados a nível mundial pela sua qualidade e as empresas reconhecidas pelo seu know how e capacidade técnica. É o caso das máquinas e moldes, plásticos e cerâmicas.

«Há que diversificar e assegurar a competitividade das nossas exportações e diversificar os mercados.»

O que gostaria de dizer aos empresários da região, nomeadamente dos sectores que tradicionalmente mais contribuem para as exportações?
Como tenho defendido, há que diversificar e assegurar a competitividade das nossas exportações e diversificar os mercados. Note-se que, 80% das nossas exportações ainda são dirigidas para os países da União Europeia. Se é certo que, nesses países, temos que assegurar a competitividade, é igualmente certo que a diversificação para fora do espaço europeu deve constituir uma prioridade do nosso comércio externo e da nossa presença como investidores. De outra forma, a dependência de mercados como o espanhol, ou o alemão é susceptível de provocar riscos ao crescimento sustentado das nossas exportações. É preciso enfrentar os desafios do mercado interno europeu e, ao mesmo tempo, os desafios da globalização e integração no comércio mundial de países como a índia ou a China. Os empresários portugueses devem olhar para a internacionalização como um caminho natural que devem percorrer, onde a Península Ibérica é o seu mercado interno, que  depois se prolonga pela Europa e acaba no Mundo.

E aos que tencionam começar a exportar, nomeadamente em áreas de menor tradição exportadora?
Digo o mesmo, acentuando que a diferenciação dos produtos e serviços é sempre conseguida através da qualificação do capital humano e da aposta na inovação.

Garantiu recentemente que a AICEP quer «ajudar a tirar os obstáculos» que impedem as empresas, sobretudo as PME, de se internacionalizarem para Espanha. A que obstáculos se refere e o que será feito nesse sentido?
Em nosso entender a sustentabilidade do crescimento da economia portuguesa depende, não apenas das grandes empresas, mas também da capacidade que as médias empresas revelem de intervir com êxito nos mercados externos, exportando e investindo. Trata-se de constituir, entre a AICEP, o IAPMEI, o Plano Tecnológico, o QREN e as universidades, uma parceria estratégica com estas empresas, com vista a dar-lhes o acesso à qualificação e inovação indispensáveis ao sucesso da sua internacionalização em mercados cada vez mais globais e competitivos.

Disse também que o IAPMEI estará focalizado na internacionalização das PME portuguesas com um volume de facturação na ordem de um milhão de euros. Como se consubstancia esse enfoque?
O que eu referi foi que a AICEP se iria concentrar na internacionalização das PME, sobretudo das médias empresas que já exportem um milhão de euros ou mais, que, de acordo com as informações que possuímos serão aproximadamente entre 1000 a 1100. São também estas, as empresas que estão na primeira linha e melhor preparadas para se internacionalizarem. Caso haja outras PME de menor dimensão, com certeza que poderemos trabalhar com elas, desde que se enquadrem nos nossos programas e objectivos. É isso que a nova entidade irá fazer em colaboração com o IAPMEI, que previamente capacitará e preparará estas empresas, no sentido do seu acesso aos mercados internacionais.

Que sentimento lhe causa o desfecho do processo Vitrocristal? É ainda possível, e desejável, dar continuidade à marca Mglass?
Lamento as dificuldades que surgiram com a Vitrocristal, mas não acompanhei esse dossier com detalhe pois não se trata do âmbito de actuação da API.

(região) «Há casos de liderança mundial e know how específico capazes de atrair novos projectos com capacidade de inovação.»

O IDE no distrito de Leiria não é muito significativo. Como “venderia” esta região de Portugal e que perspectivas existem no sentido de atrair para Leiria mais capital estrangeiro?
Como uma região com forte tradição em alguns sectores, servida por excelentes infra-estruturas, dispondo de recursos humanos de alta qualidade e onde, como já referi, há casos de liderança mundial e know how específico capazes de atrair novos projectos com capacidade de inovação.

A OTA e o TGV vão ajudar a fazer o “marketing” da região junto dos investidores estrangeiros?
São obras públicas de elevada dimensão que, certamente, trarão benefícios no domínio das infra-estruturas com consequências na “centralidade” da própria região. Quanto à Alta Velocidade, gostaria de referir que estamos a trabalhar com várias entidades e empresas no sentido de desenvolver um cluster à volta deste grande projecto, introduzindo a capacidade nacional e valorizando as empresas portuguesas de modo a conseguir uma efectiva participação das nossas empresas neste projecto.

Qual o papel das autarquias locais nesse sentido? Não deveria existir uma maior articulação/aproximação das autarquias à AICEP?
A API já trabalha de perto com as autarquias. O AICEP seguirá a mesma orientação.

Recentemente chamou à atenção para a necessidade de eliminar «burocracias internas fundamentais, para que 2007 seja o ano do investimento». A que se referia e o que espera que seja feito nesse sentido?
O problema existe porque os procedimentos e a burocracia são altamente morosos, dispendiosos e difíceis.  O excesso de burocracia não só dificulta e atrasa o trabalho do investidor, como também atrapalha e retarda o processo de análise e decisão por parte da Administração Pública. Neste contexto, foi criado o mecanismo dos Projectos de Potencial Interesse Nacional (PIN), que veio tentar colmatar essa deficiência, mas há ainda muito a fazer no sentido de garantir a operacionalização dos investimentos de forma mais rápida. Para se ter uma ideia, no âmbito da Comissão de Avaliação e Acompanhamento dos Projectos de Potencial Interesse Nacional (CAA-PIN) temos, até à data, 65 projectos aprovados, que representam um valor acumulado de investimento superior a 13 mil milhões de euros e a capacidade de gerar 58.532 novos postos de trabalho.

Que ainda não se realizaram...
Se por hipótese, e a título meramente ilustrativo, admitíssemos que estes investimentos tivessem todos sido realizados em 2006 – sabemos que os períodos de investimento e implementação são dilatados no tempo – este valor corresponderia a quase metade da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) realizada em 2006. O PIB real  teria crescido 10,3% em vez de 1,3% e a taxa de desemprego seria de 7,1% em vez dos 8,2% registados no 4º trimestre de 2006. Nesta óptica, e se conseguirmos eliminar ou reduzir os custos de contexto, certamente que o País ganhará. A intervenção do Senhor Primeiro Ministro no dia 27 de Abril na Assembleia da República, anunciando a revisão dos regimes de licenciamento, é um importantíssimo passo no caminho certo.

«Quando identificamos um potencial investidor cabe-nos salientar as vantagens específicas que mais lhe interessam.»

“Vende” Portugal à China e índia da mesma forma que “vende” Portugal aos Estados Unidos ou à Europa mais ocidentalizada?
Portugal apresenta um conjunto de vantagens em matéria de investimento. Quando identificamos um potencial investidor cabe-nos salientar as vantagens específicas que mais lhe interessam. Naturalmente, o perfil, as motivações e as características de um investimento indiano ou chinês é totalmente distinto das de um investimento espanhol ou alemão. À API cabe salientar, dentro oportunidades existentes, quais as que melhor servem os objectivos dos diferentes investidores.

Em que áreas estamos a conseguir atrair mais investimento estrangeiro e porquê?
A maior fatia do investimento continua a ser nas indústrias transformadoras com destaque para o sector automóvel e dos componentes, químico e petroquímico, vidreiro, papel e pasta. Verificamos também um interesse crescente por parte de investidores nas áreas do turismo e serviços de alto valor acrescentado tais como centros de serviços partilhados, centros de excelência e de I&D. Estes novos investimentos têm contribuído para a elevação da produção nacional na cadeia de valor. Mais do que uma localização de mão-de-obra barata, Portugal é hoje reconhecido internacionalmente como uma localização de investimento de alta qualidade.

As exportações têm crescido, sobretudo, para fora do mercado comunitário. Alguns economistas colocam dúvidas quanto à sustentabilidade desse crescimento, uma vez que os novos clientes adquirem produtos de baixo valor tecnológico, e também porque no sector automóvel paira a ameaça de deslocalização das fábricas para países europeus mais competitivos. Como comenta?
O modelo da economia portuguesa, está a alterar-se profundamente. Basta olhar para o perfil da nossa balança comercial para se perceber imediatamente isso. Quais os sectores exportadores em Portugal? Para além dos Fornecimentos Industriais, que ocupam ainda a liderança das exportações (11,4 mil milhões de euros em 2006), a segunda e a terceira posição são ocupadas pelas categorias económicas de Material de Transporte e Acessórios (com 6,4 mil milhões de euros em 2006) e as Máquinas e Bens de Capital (com 5,4 mil milhões de euros). Se somarmos as exportações destes dois últimos grandes grupos verificamos um peso determinante das nossas exportações em bens de alta e de tecnologia intermédia, no valor de 11,8 mil milhões de euros, perto do dobro das receitas do turismo. Este perfil é revelador de um Portugal diferente e que já começa a ser reconhecido.

Os transportes e turismo dominam as exportações portuguesas de serviços. Que outros serviços pode Portugal exportar e para que países?
Actualmente temos verificado grandes fluxos de investimento na área dos serviços partilhados e de assistência técnica. É uma área de actividades onde temos inúmeras vantagens dadas as competências técnicas e linguísticas e a qualidade dos nossos recursos em termos de engenharia. Ao mesmo tempo, é um sector muito virado para o exterior, com significativas exportações de serviços nas áreas financeiras, das telecomunicações, multimédia e desenvolvimento de meios e serviços de pagamento.

IN  LEIRIA ECONÓMICA.
30 NOVEMBRO -   AICEP VAI ESTAR EM ANSIÃO.
publicado por AEDA às 21:50 link do post | favorito