Sol e água evitam contas de luz

Projecto inovador em Moimenta da Beira

   Não ter "contas de luz" para pagar é o sonho de muitos portugueses, que um empresário de Moimenta da Beira conseguiu concretizar, instalando no seu empreendimento turístico um sistema que alia as energias solar e hídrica.

   Eduardo Rocha aproveitou os três moinhos que atravessaram várias gerações da sua família, em Leomil (classificados de inte­resse municipal), e criou um empreendimento turístico completamente autónomo do ponto de vista energético.

   A força das águas da Ribeira de Valongo, outrora usada para rodar as mós e transformar os grãos em farinha, vai agora alimentar uma turbina, de onde saem 2,5 kW/hora Os painéis solares (seis térmicos e 42 foto voltaicos) que complementam o astenia produzem mais 6kW/hora

   Mesmo com os seus sete quar­tos ocupados, o que poderá significar cerca de 20 pessoas e respectivos gastos energéticos, os "Moinhos da Tia Antoninha" não terão de se socorrer do gerador, a não ser em situações muito extraordinárias, garantiu Eduardo Rocha.

    «Numa perspectiva economicista, o meu investimento foi completamente errado. Teria saído muito mais barato pedir uma baixada à EDP», admitiu o empresário, que investiu 700.000 euros neste projecto, financiado pelo Sistema de Incentivos a Produtos Turísticos de Vocação Estratégica para Património Classificado, do Programa de Incentivos à Modernização da Economia (PRIME). Eduardo Rocha justificou ter feito esta opção «na perspectiva de preservar o que existia e de manter a ruralidade do espaço, que nunca teve linhas de baixa, média ou alta tensão».

   «Gosto de rodar a cabeça em todas as direcções e não ver um único cabo eléctrico. O mais próximo está a 1.200 metros», frisou o empresário de 45 anos, que vive no empreendimento desde que este foi inaugurado, há cerca de 100 dias, depois de dois anos de obras.

   Apesar de nunca ter tido qualquer formação na área ambiental ou energética foi sensibilizado para estas questões quando desempenhou o cargo de presidente da Junta de Freguesia local e lutou pela instalação de um parque eólico na Serra de Leomil.

   «Comecei a saber um pouco mais sobre as renováveis e a familiarizar-me com o Protocolo de Quioto, que Portugal terá de cumprir. Não fazia sentido saber essas coisas todas e não as tentar aplicai», considerou.

   A sua consciência ambiental pesou-lhe e o mesmo gostaria que acontecesse pelo país inteiro, até porque «no estrangeiro este tipo de projectos já não é novidade nenhuma é corriqueiro».

   Em Portugal, o seu projecto é, segundo o que disse, «o primeiro do género», por juntar num mesmo sistema dois tipos de energia renovável, permitindo que a produzida pela hídrica seja guardada nos acumuladores da solar.

«O complemento do solar com o hídrico não é muito conhecido, porque se a energia dos painéis solares é acumulada nas baterias para depois ser distribuída e consumida já nas hídricas normalmente a energia produzida é consumida no mesmo momento», explicou.

   Este constrangimento relativo ao guardar a energia hídrica nos acumuladores da solar foi ultrapassado pelo projecto do engenheiro Alberto Tavares que, depois de uma primeira relutância, aceitou o desafio de Eduardo Rocha

   A subestação onde estão situadas as 24 baterias (que acumulam energia para cerca quatro dias) e que é também o local de união dos dois sistemas energéticos transformou-se já num "ponto turístico" para os clientes dos "Moinhos da Tia Antoninha".

   «As pessoas quando vêm para cá passar uns dias nem sabem desta particularidade, mas depois acham o projecto muito curioso e querem saber como funciona», contou. Desta forma, acaba por se propiciar a Eduardo Rocha a possibilidade de contar aos visitantes um pouco da história de Leomil, onde no passado funcionaram 34 moinhos, porque a vertente hídrica do seu projecto «não inventou nada», como faz questão de frisar.»

In: Diário de Coimbra, 10nov2006

publicado por AEDA às 16:02 link do post | favorito